CANÇÕES DE AMOR E MORTE
Quando Ponce-de-Leon buscou a fonte da juventude certamente não imaginava o
que aconteceria se vivesse eternamente sem amor. Oscar Wilde, em "Retrato de
Dorian Gray" deu vida eterna ao seu personagem principal mas como o amor não
era imortal, passou a viver uma maldição. Por outro lado, se em Coríntios "Sem amor nada seríamos", o que é o mundo de hoje? Nada? Vinicius de Morais
sugeriu: que seja eterno enquanto dure - certo de que tudo tem um fim. Somos
perecíveis, não há como negar. Não somente a carne, nossos sentimentos
também. Alegria, Raiva, Rancor, Medo, Ódio, Compaixão, todos são como
freqüências captadas por nossa alma, que vem e vão, estacionam, passeiam
como Saturno por nossas cabeças ou mudam de fase como a Lua. O amor é como
um bonde que algumas vezes te pega, outras te atropela, mas tem ponto final.
Canções de Amor e Morte é o novo disco da banda carioca Uns e Outros, o
quinto de sua carreira iniciada há 20 anos. Nas doze verídicas histórias que
o compõe, Marcelo Hayena (vocal), Nilo Nunes (guitarra) e os irmãos André e
Zarmo Mainieri (guitarra e bateria) fazem referência e reverências ao amor -
do seu início a um fatídico adeus. Mesmo quando citam o seu nascimento, no
fundo, tudo é uma forma de se enterrar o amor anterior. Sem opor
resistência àquilo que sentem, singram pelo destino na nau dos versos de
cada canção. Se juntarmos cada tema, como peças de um quebra-cabeça
poderemos chegar a todas as etapas de um relacionamento, que certamente já
foi parecido com o seu.
Um Dia de Cada Vez, é uma novela britpop de um capítulo apenas, um quadro
tirado de tantas famílias e que mostra o Uns e Outros trabalhando mais os
riffs de guitarra e os vocais. A guitarra marcante de Nilo abre Eu Matei O
Amor, rock que não apresenta Marcelo como um carrasco, mas misericordiosamente
praticando a eutanásia diante de um mundo sem piedade. Depois do Temporal,
suaviza em seus versos as longas discussões de relação em uma noite sem fim
numa parceria de Nilo e Marcelo com Bruno Gouveia, do Biquini Cavadão, que
ainda assina a produção dos arranjos vocais. Em uma surpreendente versão, O
Uns e Outros regravou Dia Branco de Geraldo Azevedo e transforma a
declaração de amor de sua letra em súplica. Tão Longe do Fim, que chegou a
ser o título de seu disco anterior, aparece finalmente em disco. A música
passou por diversos arranjos ao longo dos últimos dez anos e finalmente fez
o seu debut na versão definitiva pra banda. Você me Faz Mal, escrita por
Hayena após ver a natural timidez adolescente de seu filho, é crua, ingênua
como os sentimentos mais simples que temos ao sentir o amor pela primeira
vez. O disco fecha com O Homem Invisível, uma elegia à indigência, muitas
vezes fruto de um amor perdido, e Pra Cada Amor um Adeus, instrumental
raivoso como uma despedida de portas batidas.
O disco foi todo gravado e produzido por Marcelo e Nilo Nunes no pequeno
estúdio Eletra, e mixado no Mega Estúdios do Rio por Marcio Gama. A saída do
baixista China no começo das gravações trouxe Macarrão (André Agrizzi) colaborando nas
quatro cordas. Se a moda dos anos 80 continua em voga ou não, pouco
interessa ao Uns e Outros. Marcelo Hayena acende um cigarro, o olhar parece buscar algo na esquina do futuro que deseja ver e respira fundo, seu disco não busca nada de retrô, nenhuma viagem ao passado por modismos. É um convite à reflexão, um conciso dicionário de sentimentos que podemos ter pelo Amor e a Morte e ambos são destinos quase obrigatórios pelo que chamamos de vida. Aumente o Som e pense sobre isso.